A escola não cabe na escala 6x1
Se a educação é um direito fundamental, por que milhões de brasileiros ainda precisam escolher entre estudar e trabalhar?
Por Xavier Arrais

Adentrar na temática do fim da escala 6x1 no Brasil, juntamente com o debate sobre segurança pública, é, indubitavelmente, tratar de alguns dos temas mais emergentes e presentes na boca da população em ano eleitoral. Contudo, o debate sobre o fim da escala 6x1 não pode ser compreendido na sociedade brasileira como uma mera manipulação eleitoral. Sua origem recente remonta a um trabalhador submetido a essa jornada de trabalho. Em 2023, seu nome passou a ganhar notoriedade: Rick Azevedo.
Muito já se demonstrou sobre os crimes, perigos e impactos negativos das redes sociais. Entretanto, elas também podem constituir importantes instrumentos de comunicação e mobilização social. Foi por meio de seu perfil na rede social TikTok que Rick Azevedo iniciou publicações críticas à escala 6x1, talvez ainda sem imaginar as proporções que aquele movimento começava a alcançar. Foi nesse contexto que emergiu o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), expressão de uma insatisfação crescente de parcelas da classe trabalhadora diante das condições de trabalho e da limitação do tempo destinado à vida para além do emprego.
Quem abandona a escola?
É nesse contexto que, adentrando o aspecto socioeducacional brasileiro, cabe pensar criticamente sobre os impactos da escala 6x1 em nossos jovens. A evasão escolar é um desafio complexo e multifacetado, com raízes profundas em questões socioeconômicas. De acordo com Oliveira e Nóbrega (2021), a falta de recursos financeiros dos estudantes é apontada como uma das principais causas da interrupção dos estudos. Dados do IBGE de 2022 demonstram que, entre os jovens que abandonaram ou não concluíram os estudos, a necessidade de trabalhar aparece como o principal motivo. Entre os homens, esse percentual alcança 51,6%, enquanto entre as mulheres corresponde a 24,0%.
Para deixar mais claro quem são esses agentes sociais, os dados de 2022 apontam que, considerando o total de jovens de 14 a 29 anos no país, equivalente a quase 52 milhões de pessoas, aproximadamente 18% não completaram o ensino médio, seja por terem abandonado a escola antes da conclusão dessa etapa, seja por nunca a terem frequentado. Nessa situação encontravam-se cerca de 9,5 milhões de jovens, dos quais 58,8% eram homens e 41,2% mulheres.
Aprofundando a análise, em levantamento mais recente, divulgado pelo IBGE em 2024, observa-se que cerca de 8,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos ainda não haviam concluído o ensino médio. E a materialidade social continua ratificando um elemento central: a evasão escolar, embora influenciada por diversos fatores, mantém como principal causa a necessidade de trabalhar. O dado mais recente aponta que 42,0% dos jovens que não concluíram essa etapa da educação básica atribuem sua saída da escola a questões relacionadas ao trabalho e à sobrevivência.
Os jovens que aparecem nesses números não existem no plano abstrato. Tampouco são indivíduos ocultos, embora muitas vezes sejam tornados socialmente invisíveis. Estamos falando de milhões de jovens em situação de vulnerabilidade social que compartilham com pais, mães, irmãos e demais familiares o peso do sustento doméstico. Quando falamos em "necessidade de trabalhar", não estamos nos referindo à busca por abundância ou conforto, mas às condições mínimas de sobrevivência em uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais.
No fim, quem abandona a escola? A classe trabalhadora!
O direito à educação não termina no discurso
Imprescindivelmente, reconhece-se a importância da política pública Pé-de-Meia, instituída inicialmente pela Medida Provisória nº 1.198, de 27 de novembro de 2023, e posteriormente convertida na Lei nº 14.818, de 16 de janeiro de 2024. O programa criou uma poupança de incentivo à permanência e à conclusão escolar para estudantes do ensino médio público, tornando-se um importante instrumento de enfrentamento à evasão escolar.
Sua relevância torna-se evidente quando observamos os dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), que apontam uma redução de 43% no abandono escolar no ensino médio. Além disso, desde sua criação, o programa já beneficiou 5,6 milhões de estudantes, o que corresponde a mais da metade (54%) do total de alunos matriculados no ensino médio público brasileiro.
Todavia, tais medidas ainda se mostram insuficientes para enfrentar, de forma mais ampla, os elevados índices de evasão escolar observados anualmente no país. Enquanto isso, segundo levantamento realizado pela Quaest entre os dias 8 e 11 de maio de 2026, divulgado pelo G1, 68% da população brasileira apoia o fim da escala 6x1, enquanto apenas 22% se posicionam contrariamente à proposta.
Sabe-se que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/19), que prevê o fim da escala 6x1, encontra-se atualmente em tramitação no Senado Federal. Apresentada originalmente pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), em 5 de dezembro de 2019, a proposta ganhou forte apoio popular ao longo de 2024 e 2025. Em 27 de maio de 2026, o texto foi aprovado em dois turnos na Câmara dos Deputados, com ampla maioria dos votos, sendo posteriormente encaminhado ao Senado Federal.
Contudo, até o momento, a proposta permanece sem votação. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiu que o texto não seguirá diretamente para apreciação em plenário, devendo passar inicialmente pelos debates na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pela definição de uma relatoria.
Nesse ínterim, cabe uma reflexão. Quando projetos beneficiam setores econômicos específicos — a classe dominante —, a urgência frequentemente se impõe. No entanto, quando se trata de propostas que buscam melhorar as condições de vida da população trabalhadora, surge a conhecida cautela institucional, frequentemente justificada pelo argumento de que determinadas mudanças poderiam “quebrar o Brasil”.
É nesse contexto que muitos trabalhadores e trabalhadoras chegam a uma conclusão cada vez mais presente no debate público: o Congresso é inimigo do povo; a escala 6x1 é inimiga da classe trabalhadora. Afinal, enquanto milhões de brasileiros enfrentam jornadas exaustivas, conciliam trabalho e estudo e veem seu tempo de descanso, lazer e convivência familiar reduzidos, uma proposta apoiada pela maioria da população segue aguardando os ritmos e prioridades da política institucional.
A desigualdade e a exploração também ensinam
Ainda há um longo caminho a ser percorrido no que se refere à construção da consciência de classe entre os trabalhadores brasileiros. Nesse contexto, a evasão escolar também pode ser compreendida como um mecanismo que dificulta a permanência de jovens nos espaços de formação educacional e, consequentemente, limita o acesso a conhecimentos capazes de ampliar a compreensão crítica da realidade social. Embora a escola não seja capaz, por si só, de superar as profundas desigualdades socioeducacionais existentes na sociedade brasileira, ela constitui um importante espaço de formação que pode contribuir para processos de conscientização social e política.
A educação, a formação escolar e o acesso ao conhecimento teórico não são apenas elementos relevantes, mas instrumentos indispensáveis para o desenvolvimento da consciência social e de classe. Entretanto, quando as condições de trabalho também restringem o acesso e a permanência nos processos educativos, como ocorre em muitos casos associados à lógica da escala 6x1, observa-se uma contradição significativa. Ao mesmo tempo em que limita oportunidades de formação, essa realidade expõe materialmente as condições de exploração vivenciadas pela classe trabalhadora.
O crescente movimento em defesa do fim da escala 6x1 revela justamente essa dimensão concreta da experiência social. Quando trabalhadores sentem cotidianamente os efeitos do cansaço excessivo, da redução do convívio familiar, da limitação do tempo destinado ao lazer e da constante necessidade de sobreviver, passam a perceber de forma mais nítida as desigualdades que atravessam suas vidas. Nesse sentido, ainda que a educação permaneça como um dos principais caminhos para a formação crítica, a própria experiência da desigualdade e da exploração também pode contribuir para o desenvolvimento de formas de consciência social e de classe.
REFERÊNCIAS:
AGÊNCIA BRASIL. Câmara aprova em dois turnos PEC pelo fim da escala 6x1. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-05/camara-aprova-em-dois-turnos-pec-pelo-fim-da-escala-6x1. Acesso em: maio. 2026.
AGÊNCIA BRASIL. Programa Pé-de-Meia reduz abandono escolar no ensino médio em 43% em dois anos. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-04/pe-de-meia-reduz-abandono-escolar-no-ensino-medio-em-43-em-dois-anos. Acesso em: maio. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Linha do tempo do Programa Pé-de-Meia. Brasília, DF: Ministério da Educação, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/pe-de-meia/linha-do-tempo. Acesso em: maio. 2026.
G1. Pesquisa Quaest mostra apoio da população ao fim da escala 6x1. Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/05/18/fim-da-escala-6x1-quaest.ghtml. Acesso em: jun. 2026.
IBGE. Educação 2022: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/17270-pnad-continua.html. Acesso em: maio. 2026.
IBGE. Educação 2022: PNAD Contínua: informativo. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102002_informativo.pdf. Acesso em: maio. 2026.
OLIVEIRA, Francisco Lidoval de; NÓBREGA, Luciano. Evasão escolar: um problema que se perpetua na educação brasileira. Revista Educação Pública, v. 21, nº 19, pp. 01-04, 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/19/evasao-escolar-um-problema-que-se-perpetua-na-educacao-brasileira. Acesso em: maio. 2026.
PROIFES-Federação. Comissão da Câmara aprova PEC 221/19 da redução da jornada de trabalho (6x1). Disponível em: https://proifes.org.br/comissao-da-camara-aprova-pec-221-19-da-reducao-da-jornada-de-trabalho-6x1/. Acesso em: maio. 2026.
SENADO FEDERAL. Após aprovação na Câmara, Senado analisará fim da escala 6x1. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/28/apos-aprovacao-na-camara-senado-analisara-fim-da-escala-6x1. Acesso em: maio. 2026.
VIDA ALÉM DO TRABALHO. Marcos do movimento vida além do trabalho. Disponível em: https://www.vidaalemdotrabalho.com.br/cronologia. Acesso em: jun. 2026.



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