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"Eu queria que minha história fosse diferente da dele": a luta de Francisco* contra a dependência química

revistasorciere
9 de jul.
5 min de leitura

*Nesta reportagem, os nomes dos personagens foram alterados para preservar suas identidades.


Por Allyne Bentes


Ilustração por Luiz Siqueira
Ilustração por Luiz Siqueira

Há 23 anos, Francisco faz parte da irmandade Narcóticos Anônimos (NA). Em 2003, aos 16 anos, começou a frequentar as reuniões por incentivo da mãe e porque já não se reconhecia diante da dependência química.


A poucas quadras de onde morava, aconteciam encontros dos Alcoólicos Anônimos (AA). Foi em uma dessas reuniões que conheceu os Narcóticos Anônimos. Quem o apresentou foi José, um amigo mais velho que também enfrentava a dependência e tentava permanecer limpo havia alguns anos.


"Muitas vezes a gente usava droga junto e ficava falando de recuperação: 'Caramba, bicho, será que um dia a gente vai conseguir sair dessa porra? Vai sair dessa vida? Vai ficar bem?' Ele tinha uma idade bem mais avançada do que a minha. Na época eu tinha 16 anos e ele já tinha quase 40”.

Francisco conta que se identificou imediatamente com os outros membros da irmandade e foi acolhido pelo grupo.


"Vou falar uma coisa para você: nessas minhas andanças dentro da sala do grupo, mudou alguma coisa dentro de mim. Eu nunca mais consegui usar droga da mesma forma. Toda vez que eu saía de uma reunião e recaía, eu me lembrava da sala, dos companheiros. Tinha uma voz dentro de mim que dizia: 'Poxa, cara, isso que tu tá fazendo tá errado. Tem jeito para você'."

Na época, porém, ele não aceitava que estivesse doente. Apesar de se identificar com as histórias dos outros participantes, acreditava que era jovem demais para frequentar a irmandade e que conseguiria abandonar as drogas sozinho.


"Eu queria parar, mas não sabia como. É muito conflitante você querer fazer uma coisa, saber o que tem que fazer, mas não conseguir. Eu sabia o que precisava fazer para ficar limpo, mas não tinha força suficiente. Nem mesmo com as internações."

Mesmo diante da resistência, os companheiros não desistiram dele.


"Muitas vezes, quando eu não tinha forças para ir para a irmandade, os companheiros iam à minha casa me buscar. A mão da irmandade sempre esteve estendida para mim, e eu negligenciei isso durante muito tempo."

O Livro Azul, principal obra da literatura de Narcóticos Anônimos, afirma que o caminho da dependência química leva a três destinos: prisões, instituições e a morte. Francisco já havia experimentado dois deles. Restava o terceiro, que o assustava profundamente.


José, o amigo que o apresentou à irmandade, foi assassinado em 2013 pelo próprio irmão, com dois tiros no rosto.


"Não conseguiu. Não morreu limpo. Morreu vítima de uma circunstância de uso de droga."

Naquele período, Francisco também ainda não havia conseguido abandonar a dependência. A morte do amigo, entretanto, transformou-se em um marco na própria trajetória.


"Eu tinha medo da morte. Não queria morrer drogado, como eu vi aquele companheiro que me levou para a irmandade morrer. O cara que me apresentou à NA. Eu queria que a minha história fosse diferente da dele e de muitos outros que eu vi e que, infelizmente, não conseguiram ficar limpos."

A recuperação foi longa. Ao todo, Francisco passou por três internações na ala psiquiátrica do Hospital Geral de Roraima (HGR), sete internações em comunidades terapêuticas, além de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, com uso de medicação.


A vontade de abandonar as drogas já existia havia anos, mas foi fortalecida pela morte do amigo e, principalmente, pela perda da guarda do filho.


"Aquilo foi a coisa que mais me doeu na vida. Então eu tive que fazer uma escolha."

Desde então, as reuniões da Narcóticos Anônimos passaram a ocupar um lugar central em sua rotina. O apoio recebido dentro da irmandade continua sendo, até hoje, um dos principais pilares da recuperação.


"O que eu encontrei na irmandade foi uma coisa que nunca encontrei em lugar nenhum: um amor verdadeiro. Frequentei igrejas, centro espírita, terreiro, mas nada era igual aos Narcóticos Anônimos. Um abraço fraterno, caloroso, todo mundo na mesma situação, alguns com mais tempo de recuperação, outros com menos, sempre tentando ajudar quem está chegando. Isso me motivou demais a permanecer."

Francisco está limpo há nove anos e cinco meses. Além das drogas, também deixou de consumir nicotina e cafeína. Continua frequentando regularmente as reuniões, onde compartilha sua história para incentivar quem ainda luta contra a dependência.


A recuperação permitiu que retomasse uma vida que antes parecia impossível. Recuperou a guarda do filho, constituiu família, oficializou o casamento com a companheira de quase dez anos, foi aprovado em concurso público para a Prefeitura de Boa Vista e hoje trabalha na rede municipal de ensino. Ao lado da esposa, também administra um empreendimento familiar. Pela primeira vez, conseguiu viajar pelo Brasil e para fora do país, realizar sonhos antigos e construir uma rotina que antes parecia inalcançável. Mas, para Francisco, nenhuma dessas conquistas representa o verdadeiro significado da recuperação.


"Eu perdi o desejo de usar droga e venho encontrando, todos os dias, uma nova maneira de viver. Quando olho para os meus filhos, vejo meu carro na garagem, acordo cedo para trabalhar e lembro que não preciso mais fugir de mim mesmo. Não preciso me esconder de ninguém, nem tentar lembrar o que fiz na noite anterior, quem enganei ou para quem fiquei devendo."

Ele afirma que todas as conquistas materiais vieram como consequência de uma decisão muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil.


"Tudo isso que aconteceu são só consequências de eu me manter limpo um dia de cada vez. Esse é o grande propósito da irmandade: viver a recuperação de 24 em 24 horas. Foi assim que esses nove anos foram acontecendo."

Os desafios também mudaram com o tempo. Se antes a luta era contra a vontade de usar drogas, hoje ela está nas responsabilidades da vida cotidiana. Foi criando o filho, acompanhando consultas médicas, participando da escola e aprendendo a administrar a própria vida que encontrou um novo motivo para permanecer em recuperação.


"Essa responsabilidade de cuidar dele me ajudou demais a me manter limpo. Hoje meu filho está bem, mora comigo, nunca se envolveu com nada de errado. Eu sou muito feliz."

A história de Francisco evidencia os impactos devastadores da dependência química, mas também demonstra que a recuperação é possível. Um dia de cada vez, ele reconstruiu a própria vida e encontrou aquilo que, durante muitos anos, parecia inalcançável: a possibilidade de viver sem precisar fugir de si mesmo.


Nota de serviço


A dependência química é reconhecida como uma doença e possui tratamento. Pessoas que enfrentam esse problema podem buscar atendimento na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), em unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e em grupos de ajuda mútua, como os Narcóticos Anônimos (NA) e os Alcoólicos Anônimos (AA). Procurar ajuda é o primeiro passo para iniciar a recuperação.


Contato Narcóticos Anônimos em Roraima: (95) 3003-5222

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