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"Comprava de manhã a fralda dele e, de noite, eu tava trocando na boca": a luta de Francisco* contra a dependência química

revistasorciere
9 de jul.
4 min de leitura

*Nesta reportagem, os nomes dos personagens foram alterados para preservar suas identidades.


Por Allyne Bentes


Ilustração por Luiz Siqueira
Ilustração por Luiz Siqueira

Francisco tinha abandonado a escola, afastado a família e já não conseguia imaginar um dia sem drogas. Morava a poucos minutos do bairro Caetano Filho, conhecido como Beiral, principal ponto de concentração do tráfico em Roraima. A proximidade geográfica, porém, estava longe de explicar sua dependência. Naquele momento, tudo o que importava era saber quando conseguiria usar novamente.


Aos 14 anos, Francisco teve o primeiro contato com as drogas. Foi por curiosidade, na casa de um amigo que morava próximo. No dia seguinte, procurou o rapaz novamente para comprar. "Gostei daquela sensação."


O contato com o álcool, porém, não era novidade. Francisco cresceu em uma família onde o consumo excessivo de bebida era frequente. O avô morreu em decorrência de cirrose e, pouco antes de experimentar outras drogas, ele próprio havia sido expulso da escola após chegar alcoolizado.


"Fiquei tão bêbado que perdi a consciência. Na sala de aula, desacatei a diretora, vomitei na sala dela e mandaram chamar meus pais", relembra.

O adolescente aplicado, que gostava de estudar, jogar bola, sonhava em fazer faculdade e formar uma família, aos poucos ia desaparecendo. Os estudos foram a primeira área de sua vida afetada pelo uso de drogas.


"Eu só vivia usando droga, acordava pensando em droga e ia dormir pensando em droga. Vivia pela rua, minha mãe já não confiava em me deixar sozinho em casa. Foi difícil, porque eu cheguei ao fundo do poço e me isolei da minha família", conta.

Quando o uso deixou de ser esporádico, Francisco já não conseguia mais se concentrar em qualquer outra atividade. Matava as aulas para fazer "bicos" e conseguir dinheiro para alimentar a dependência. Foi aos 16 anos que abandonou a escola definitivamente.


"Não conseguia nem ficar dentro da sala de aula, queria era estar usando droga. [...] Subtraía as coisas dentro de casa, subtraía minhas próprias coisas e pedia dinheiro emprestado para os vizinhos. Lembro que fui expulso da escola porque roubei a bicicleta de um colega da minha sala. Fiquei com muita vergonha porque todo mundo descobriu. Foram na minha casa, mas nunca recuperaram a bicicleta, porque eu deixei numa boca e não tive coragem de ir buscar. Me obrigaram a ir lá, falaram que iam chamar a polícia, e eu respondi: 'Rapaz, chama. Nessa altura do campeonato, eu nem sei mais onde está a bicicleta. Troquei numa boca'. Isso me deixou com muita vergonha porque, até então, os colegas da sala não sabiam que eu tinha problemas com drogas."

Após deixar a escola, Francisco sentia cada vez mais o controle da própria vida escapar. As experiências típicas da adolescência, como namoro, amizades e estudos, deixaram de fazer parte da sua rotina. A droga tornou-se o centro da sua vida, e o único vínculo permitido pela dependência era com outros adictos.


Isolado da família, tentou inúmeras vezes parar sozinho. Preso, sem perceber, ao ciclo da dependência, foi aos 17 anos que ocorreu sua primeira internação.


"Fiz muitas coisas para conseguir sustentar o meu uso de droga. Cheguei até a me prostituir para conseguir dinheiro para comprar droga. Foi uma época bem sinistra."

Aquele jovem cheio de sonhos e planos tornou-se um adulto que já não conseguia cuidar do próprio filho e vivia exclusivamente em função do consumo. Tanto Francisco quanto Amora, sua companheira na época e mãe da criança, estavam em estágio avançado da dependência química. Passavam os dias usando drogas e trocavam tudo o que possuíam por mais algumas horas de consumo.


"Eu já tinha vendido tudo o que era da minha casa. Não tinha mais nada de valor. Até o próprio alimento do meu filho eu subtraía. Comprava de manhã a fralda dele e, de noite, eu tava trocando na boca."

A culpa aparecia antes mesmo do consumo, mas não era suficiente para impedir que ele usasse.


"Muitas vezes eu já usava chorando, contra a minha vontade."

Perder a guarda do filho, então com dois anos de idade, tornou-se o ponto de partida para sua recuperação.


"Uma vez eu tava chorando, usando droga, já era de noite. Nesse dia apareceu um tio da minha ex-companheira lá em casa. Eu abri o jogo para ele e falei: 'Cara, leva essa criança daqui. A gente tá usando muita droga. Tem que tirar esse menino daqui de dentro de casa, porque a gente vai acabar abandonando ele'. E eles fizeram isso. Levaram nosso filho."

Francisco permaneceu 30 dias internado na ala psiquiátrica do Hospital Geral de Roraima (HGR). Em seguida, foi encaminhado para uma comunidade terapêutica na zona rural de Boa Vista, onde, após um longo período, começou a permanecer limpo. Aquela foi sua sétima internação. Amora foi internada no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) e, posteriormente, transferida para uma unidade de tratamento em São Paulo.


"O que mais me assustava nesse período era isso: eu não conseguia mais nem cuidar do meu próprio filho por causa da dependência. É muito difícil querer ser pai, tentar ser pai, sendo um adicto, um dependente químico. A vontade de usar droga era maior do que a vontade de estar perto do meu filho. Eu não tinha paciência com ele. Na verdade, muitas vezes vi meu filho até como um empecilho para usar droga. Era uma insanidade da minha parte."

Nota de serviço


A dependência química é reconhecida como uma doença e possui tratamento. Pessoas que enfrentam esse problema podem buscar atendimento na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), em unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e em grupos de ajuda mútua, como os Narcóticos Anônimos (NA) e os Alcoólicos Anônimos (AA). Procurar ajuda é o primeiro passo para iniciar a recuperação.


Contato dos Narcóticos Anônimos em Roraima: (95) 3003-5222

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