Artista roraimense aposta tudo em poltrona autoral e encara dois dos maiores eventos de design do mundo sem financiamento completo
- revistasorciere
- 2 de mai.
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Milhomem Alba tinha 60 dias e um objetivo: arrecadar R$ 70 mil, valor aproximado dos custos para participar de feiras internacionais em Milão e Nova York.
Por Allyne Bentes

Convidado para expor no Salone del Mobile 2026, realizado entre 21 e 26 de abril, na Itália, e no International Contemporary Furniture Fair (ICFF), que ocorre de 17 a 19 de maio, nos Estados Unidos, Milhomem Alba decidiu viajar mesmo sem ter arrecadado todo o valor necessário para cobrir os custos da participação. No processo, acabou expondo também uma fragilidade maior: a dificuldade de sustentar uma produção artística e autoral a partir do mercado local em Roraima.
Antes de ser artista plástico e designer de produtos, Milhomem Alba foi músico. A relação com as artes visuais começou de forma pouco comum: depois de perder sua coleção de arte, sentiu falta de ter obras em casa e decidiu produzir as próprias peças para preencher as paredes brancas. Como também não tinha móveis, passou a criá-los em paralelo à produção artística.
Apesar do início pessoal, o processo já nascia com pretensão profissional. Milhomem documentava as produções em vídeo, publicava nas redes sociais e começou a perceber a repercussão positiva do trabalho.
“Eu passei a entender que aquilo poderia ser um negócio. E assim foi”, conta.
Foi a partir dessas experiências que ele começou a enxergar a possibilidade de transformar a produção artística em um negócio rentável. Até então, conciliava a criação com a publicidade, enquanto desenvolvia duas frentes distintas: o design de produtos e as artes plásticas.
A projeção internacional de sua carreira como artista plástico e designer de produtos já vinha crescendo nos últimos anos. Em 2023, ele recebeu um prêmio mundial de design na Alemanha, mas não conseguiu comparecer por falta de recursos. Depois, viu sua poltrona ser aceita em uma galeria de arte em Lake Worth, na Flórida, Estados Unidos. Agora, foi justamente fora do estado que surgiu uma das oportunidades capazes de alavancar sua trajetória no circuito internacional.
Em Miami, Milhomem fazia acompanhamento com a Apex Brasil, instituição governamental brasileira que oferece suporte a empresas de pequeno porte interessadas em exportar sua produção. Foi durante uma reunião no escritório da Apex que um encontro inesperado mudou o rumo da conversa. Um colaborador da instituição, que havia sido responsável pelo setor de móveis por oito anos e estava de férias naquele momento, apareceu e decidiu participar da reunião.
“Ele mora na Califórnia e me passou todos os nomes e telefones de pessoas que poderiam ampliar o meu network, minha rede de contatos. E uma delas era da Abimóvel, que eu já tinha entrado em contato, que é a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário, mas, por várias vezes, eu não conseguia uma reunião. Dessa vez, através do contato que eu peguei lá, consegui agendar”.
A intenção inicial era se associar à Abimóvel, considerando que a entidade promove eventos nacionais e internacionais voltados ao setor moveleiro e essa era uma forma de divulgar seu trabalho. Durante a reunião, Milhomem explicou que, além de designer, também era fabricante e mantinha um pequeno ateliê em Roraima. Foi então que apresentou a poltrona.
“Eu mostrei a poltrona para ela, que é a diretora executiva da Abimóvel, e ela imediatamente mudou o semblante, falou: ‘Nossa, essa cadeira é linda! Você tem como mandar para Milão daqui dois meses?’. E foi isso. Objetivamente. Ela se apaixonou pela cadeira e falou: ‘Manda daqui dois meses’. Aí eu falei: ‘Olha, tem um ICFF no outro mês, né?’. Ela falou: ‘É, vou te botar no ICFF também, manda para lá também, porque essa cadeira precisa estar lá’. Foi isso. Uma reunião e eu consegui”.

A partir do convite, começaram 60 dias de campanha para tentar arrecadar cerca de R$70 mil. O valor incluía taxas, passagens, hospedagem, alimentação e custos logísticos para levar a peça aos eventos.
“Era isso, tempo muito curto para conseguir uma cortada de dinheiro que não condiz com a demanda que eu tenho em Roraima. Então, eu precisava de várias possibilidades: patrocínio, apoio, a própria vaquinha e também venda das poltronas”.
Apesar da repercussão nas redes sociais e na imprensa, a vaquinha arrecadou pouco. O valor não chegou a R$14 mil. O restante veio principalmente da venda de poltronas, algumas em Roraima e outras para compradores de fora, como São Paulo.
“Hoje, infelizmente, até o momento, eu preciso do apoio de pessoas, porque a iniciativa privada e a iniciativa pública não dão o apoio necessário. O mercado local, que são as pessoas que poderiam comprar, não compra. Ou seja, nós não temos mercado de arte em Roraima”.
Mesmo sem todo o dinheiro necessário, Milhomem embarcou para Milão. O valor arrecadado até aquele momento cobriu a taxa de participação no evento, as passagens e parte dos custos com alimentação e hospedagem.
“A oportunidade é única. Eu estou arriscando tudo que eu tenho e o que eu não tenho aqui. É uma aposta. É uma aposta calculada. Então, eu estou fazendo uma viagem com muita coragem e fé de que ela vai ser paga ao longo dela mesma”.
Vale a pena o risco?
Sonhar não é uma prática rara, mas não são muitos que teriam a coragem de Milhomem Alba. Para um designer e fabricante de móveis com ateliê próprio, participar de eventos desse porte não significa jogar no escuro, mas investir no próprio futuro. É a chance de estar entre nomes importantes do design, diante de compradores de mobiliário de alto padrão, arquitetos, fabricantes e avaliadores do mercado internacional.
Para Milhomem, a presença nesses espaços funciona também como um teste.
“O evento é para venda, mas eu entendo que não é só para vender, é um termômetro de qualidade. Tudo bem, o trabalho é bom, eu sei que tem qualidade, mas eu preciso saber o que tem dentro do projeto que tem mais qualidade, menos qualidade, o que precisa ser melhorado, o que agrada, o que desagrada. Então, está em jogo isso, o meu nome está em jogo. É o divisor de águas mesmo. Tudo pode acontecer, antes, durante e depois desse evento”.
A peça em exposição é a Poltrona Forest Chair, uma criação autoral da série 001. A estrutura original é uma peça única, soldada, mas precisou ser adaptada para a viagem.
“Eu precisei fazer uma versão dela desmontável, com parafusos, para que eu pudesse botar dentro de uma caixa e exportar de maneira que eu pudesse economizar no frete, inclusive para que ela pudesse ser transportada dentro do avião como bagagem”.

A poltrona também é composta por uma rede feita com fibras de buriti e trançada por indígenas Warao. A inspiração estética parte de Roraima, mas sem se limitar a uma representação óbvia da Amazônia. A fauna, a flora e as paisagens do estado surgem de forma sutil, misturadas a influências da arquitetura, da história da arte, da música, da indústria automotiva e da cultura americana.
“As minhas temáticas são amazônicas, mas são sutis. Não é uma Amazônia rústica ou rudimentar. São linguagens estéticas diferentes”, explica.
Para ele, ser um artista amazônico não é uma limitação, mas uma característica de origem. “Até sinto um certo orgulho, porque fazer arte na Amazônia é algo único”.
O projeto da Florest Chair levou três anos para ser desenvolvido e terá produção limitada: ao todo, serão fabricadas apenas 50 unidades da Forest Chair. Caso tivesse optado por não participar das exposições, Milhomem acredita que poderia atrasar de três a cinco anos a própria carreira. Isso porque, para participar novamente de uma oportunidade semelhante, seria necessário apresentar um novo lançamento exclusivo à altura.
“O que foi exigido pela Abimóvel é que fosse um lançamento, teria que ser um móvel exclusivo. Ou seja, para eu ter uma outra chance dessa, teria que criar um mobiliário novo à altura. Então, seria um risco muito grande. Eu não sei se ia atender à expectativa no futuro com outro móvel. Por isso preferi arriscar. Tudo ou nada, né?”
A história de Milhomem Alba não é apenas sobre uma cadeira atravessando o oceano. É também sobre o que acontece quando artistas de regiões fora do eixo precisam buscar, longe de casa, a validação e o mercado que ainda não encontram onde vivem.
A dificuldade de ser artista em Roraima
Para Milhomem, a participação em eventos internacionais não expõe apenas uma conquista individual. Também revela a ausência de um mercado estruturado para a arte e o design autoral em Roraima.
Dados do Sebrae/RR indicam que, embora o número de empresas vinculadas à economia criativa em Roraima tenha crescido 93,1% entre 2019 e 2024, a taxa de mortalidade empresarial no setor chegou a 41,5%. O dado revela um cenário dinâmico, mas também instável, marcado por desafios como acesso a financiamento, capacitação empresarial e infraestrutura adequada.
Segundo Alba, a baixa demanda local foi um dos principais motivos para recorrer à vaquinha, à venda de poltronas e à busca por apoio externo. Sem compradores suficientes, artistas e criadores acabam dependendo de alternativas instáveis para financiar oportunidades de crescimento.
“Se você não tem demanda, você precisa apelar para patrocínio, iniciativa pública, privada ou vaquinha. Então, a falta de demanda gera esse tipo de campanha”, afirma.
A crítica de Milhomem é direta: para ele, Roraima ainda não sustenta economicamente esse tipo de produção. O artista reconhece que há exigência sobre o trabalho local, mas pouca disposição de compra.
“Roraima é um mercado que não te compra. É exigente e não compra”, diz.
Na avaliação dele, o problema não está na falta de talento, mas na ausência de um ecossistema que permita que esses talentos sobrevivam. Sem público consumidor, sem investimento e sem circulação econômica, muitos profissionais deixam de existir antes mesmo de alcançar maturidade artística.
“Quantos talentos roraimenses deixaram de existir em qualquer área porque se torna inviável trabalhar com isso em Roraima?”, questiona.
Por isso, Milhomem passou a pensar sua empresa para operar fora do estado. Para ele, o reconhecimento em mercados como o Sul e Sudeste do Brasil, a América do Norte e a Europa ocorre de forma mais objetiva: o é avaliado pelo resultado, não pela origem.
trabalho
“Lá fora, eles olham o teu trabalho e dizem se é bom ou não é. Ponto final.”


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