A recusa como ruptura da performance em A Vegetariana
- revistasorciere
- 24 de abr.
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O que acontece quando uma mulher decide parar de "obedecer"?
Por Allyne Bentes
Em A Vegetariana, da Han Kang, essa ruptura começa de forma aparentemente simples: Yeonghye decide não comer e nem preparar mais carne. A partir dessa escolha, o que se desdobra não é apenas a mudança de um hábito alimentar, mas o colapso de tudo o que se esperava dela enquanto esposa, mulher e corpo dentro de uma estrutura social.
Narrado em três atos, o romance apresenta diferentes perspectivas sobre Yeonghye, sendo a primeira delas a de seu marido. A escolha pela ausência da voz da protagonista é mais uma forma sutil de destacar o silenciamento vivido pela personagem. É a partir desse olhar que se evidencia uma crítica incisiva à estrutura patriarcal do casamento. A rotina do casal segue um modelo tradicional: Yeonghye assume integralmente as tarefas domésticas e ainda contribui financeiramente, enquanto o marido limita sua participação ao sustento econômico.
Nesse contexto, a comida ocupa um papel simbólico central. Quando Yeonghye deixa de cozinhar carne, o marido não reage apenas à mudança de hábito, mas à quebra de uma função social. Ao defender que “as mulheres da família cozinham muito bem”, ele menciona mãe, irmã e esposa, todas associadas ao ato de preparar o alimento. Já ao falar dos homens, refere-se apenas ao ato de comer. O prazer masculino é central; o feminino, irrelevante. Alimentar os homens, nesse sentido, torna-se mais importante do que qualquer desejo próprio. A recusa de Yeonghye, portanto, não é só alimentar, é estrutural. Ela deixa de cumprir o papel esperado. E é justamente isso que causa estranhamento: a emergência de uma vontade própria onde antes havia conformidade.
A violência que atravessa essas relações também se apresenta de forma inquietantemente naturalizada. No romance, as duas irmãs vivenciam situações de violência sexual dentro do casamento, tratadas pelos personagens como algo ordinário. O desejo masculino se impõe mesmo diante do cansaço e da recusa feminina, revelando uma lógica em que o corpo da mulher não lhe pertence plenamente.
Há ainda uma constante insatisfação masculina diante do que a mulher é ou deveria ser. Os limites são sempre impostos de fora, pai, mãe, marido, irmãos, e nunca suficientes. O desejo desloca-se, inclusive, para o proibido: o marido de Yeonghye demonstra interesse pela cunhada, enquanto o marido da irmã manifesta o mesmo em relação a ela. Não se trata apenas de desejo, mas de posse, de transgressão e de insatisfação permanente. Nesse cenário, o cuidado, ou a ausência dele, torna-se determinante. A forma como a família reage à decisão de Yeonghye não acolhe, não escuta, não compreende. Ao contrário, contribui para o agravamento de seu estado físico e psicológico. O que poderia ser interpretado como um pedido silencioso de ajuda é tratado como desvio a ser corrigido.
“Isto era o que mais lhes perturbava: ver como o marido queria se livrar dela, como quem joga fora um relógio quebrado ou um aparelho defeituoso. ‘Não pensem que sou uma pessoa cruel. Todo mundo sabe que a maior vítima dessa história sou eu.’”
Mais do que uma narrativa sobre alimentação ou saúde mental, A Vegetariana expõe os limites impostos ao corpo feminino e as consequências de ultrapassá-los. Yeonghye deixa de performar aquilo que esperam dela, como esposa, como mulher, como sujeito social e, nesse gesto, torna-se ininteligível para todos ao seu redor.

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